Emília Pires

O meu interesse pela fotografia começou teria eu uns 10 anos, quando o meu pai me deixava entrar naquela casa escura, com uma luz vermelha acesa, onde acontecia a magia de aparecerem no papel, mergulhado naqueles tabuleiros, as Welwitschias e as cabras de leque que ele fotografava pelo deserto, mesmo ali atrás da nossa casa. Às vezes deixava-me virar o papel com umas pinças. Naquela idade, era para mim uma verdadeira magia. O meu primeiro modelo foi um homem mucubal. Entre os miúdos da escola dizia-se que os mucubais cuspiam quando passavam por nós e lançavam feitiços. O tempo passou num pulo. Deixei o Kalahari que me fascinava e voltei para Lisboa para estudar. Já não havia mucubais, nem deserto, nem casa escura e eu já não era mais menina. Com o meu primeiro ordenado comprei uma máquina fotográfica. Era uma Olympus Pen. Andava sempre com ela e fotografava tudo o que me encantava. Principalmente paisagem e cenas da natureza. Casei e fui mãe. Fotografei os meus filhos com uma Miranda que era do meu marido e mais tarde com uma Nikon. Entre família, casa e emprego abandonei a câmara. Nem havia sequer espaço para pensar em fotografia. Agora, que os filhos já saíram de casa, aquele bichinho que viveu sempre dentro de mim, talvez um feitiço dos mucubais desde o dia em que fiz a minha primeira foto e lhes roubei a alma, voltou a ratar e comprei uma digital reflex de entrada, de novo uma Olympus. Foi com esta máquina que dei verdadeiramente os primeiros passos na fotografia durante três anos. Penso que progredi bastante e a Olympus começou a ser curta para as cenas que eu queria captar. Actualmente tenho a Canon como companheira dos meus dias.